Beleza externa e interna
Nos últimos anos assistimos a uma revolução na área da saúde, que deslancha em descobertas de todos os tipos, e por isso podemos prolongar a saúde, a juventude e a vida adulta produtiva por muito mais tempo. Hoje todos são jovens aos 40, muitos aos 50 anos e não é difícil encontrá-los aos 60, pois estamos nos alimentando melhor, fazendo mais exercícios, cuidando mais da pele, da mente e do espírito. O resultado é esse: uma vida mais longa e com qualidade. E quem cuida do corpo e da saúde costuma ter uma boa auto-estima, ser afetuoso, humano, sensível e não se esconder do mundo, o que é, sem dúvida, muito bom.
Mas paralelamente a essa revolução na qualidade de vida, há a mídia que dita o que é ou não bom, o que é ou não bonito, tanto denunciando maus hábitos, como colocando metas intangíveis em nossos objetivos de vida: o corpo da Gisele, a boca da Aline, o cabelo da Taís, a barriga da Carolina, a bumbum da Juliana, a pele da Débora, o sucesso da Glória e o marido da Angelina. Já sabemos que não há como atingir esses padrões, mas mesmo assim eles nos servem como referências do que deve ser atingido, criando uma angústia por “não sermos bons o bastante”. Essa angústia, somada a frustrações, medos e carências próprias de cada um, podem chegar a criar problemas de ordem emocional, aumentando muito o que já existe em estado latente internamente.
É isso que o profissional de estética observa em muitos pacientes: a procura por um padrão de beleza externa para aplacar alguma angústia interna, o que merece muito da nossa atenção. É comum que as pessoas queiram preencher sua carência afetiva tentando ficar mais bonitas para serem mais desejadas, por exemplo. Mas será que uma mudança externa pode acabar com frustrações internas? A resposta é não. Uma melhora externa pode ajudar, e muito, na segurança e auto-estima, mas não resolve carências, frustrações, maus-hábitos, decisões erradas ou uma vida estressante. É preciso pensar até onde o pavor das rugas não esconde a insegurança da velhice ou a busca da barriga perfeita não camufla a imaturidade de uma criança interna.
O que fica claro aqui é a necessidade de buscar soluções para resolver problemas internos e externos de forma associada, para que a busca da beleza e da saúde não seja algo sem fim, mas que tenha um fim tangível e que traga muita felicidade aos que a procuram. Ver um paciente feliz ao final de um procedimento é algo que recompensa todos os anos de estudo e dedicação do profissional, mas se este paciente estiver usando este tratamento, seja qual for, como escape para seus problemas emocionais, não haverá felicidade, mas mais e mais frustração, por mais que o tratamento tenha sido bem sucedido.
É por isso que há a necessidade de sermos cada vez mais interdisciplinares, ou seja, tratar o mesmo problema com áreas distintas, concomitantemente. Então, um tratamento estético pode ser acompanhado por uma psicoterapia breve e ter seus resultados ampliados, além de melhorar a satisfação e a felicidade de quem o faz, tendo um paciente mais bonito, por dentro e por fora.
Rosana de Cássia Ferreira Machado
Sociedade Paulista de Psicanálise
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